BRT, Mobilidade e Segurança

Independente da sua eficácia, seja ela em um médio ou longo prazo, a adoção do modal BRT (Bus Rapid Transit) para transportes públicos vai muito mais além de sua operação e disponibilização para a população. Existe questões relacionadas a segurança na implantação desse sistema que pode colocar em cheque toda sua credibilidade.

Segundo estudo realizado pela EMBARQ, e publicado como diretrizes no planejamento viário com foco nos BRTs, vários são os fatores que contribuem para acidentes nos grandes corredores viários. Alguns deles são:

  • Pedestres correspondem a maioria das fatalidades ocorridas em todos os corredores de ônibus.
  • Segurança em sistemas BRT e corredores de ônibus depende da concepção global da via e não apenas da infraestrutura dos ônibus.

Esse documento é um manual completíssimo para um planejamento realmente eficaz na adoção de BRTs. Muitos detalhes são analisados, estudados e algumas soluções são propostas. Coisas como fórmula para calcular o atraso de pedestres para projetar corretamente as travessias em meio de quadra, infraestrutura para bicicletas e vegetação, uso de passarelas, dentre outros pontos são abordados em profundidade pelo documento.

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Com esse documento em mãos não tem como uma implantação de BRT em uma grande cidade não ser meticulosamente estudada e BEM projetada. Os riscos podem ser cuidadosamente analisados de maneira que os investimentos (altíssimos nessas mega intervenções) sejam aplicados assertivamente e sem desperdícios para gerações e gerações.

“Segurança Viária em Corredores de Ônibus, diretrizes para integrar segurança viária ao planejamento, projeto e operação de sistemas BRT, corredores e faixas de ônibus” é um documento cuja leitura é OBRIGATÓRIA para nossas secretarias de transportes e mobilidade urbana.

Recomendo !

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O Futuro da Mobilidade Urbana – Parte 2

Tem de tudo no relatório da ADL sobre mobilidade urbana no mundo. Muitos dados, muitas análises e, sobretudo, muitas indicações de caminhos e descaminhos no futuro da mobilidade. Algumas correlações (relação entre variáveis) também são apontadas. Uma delas trata do uso da inovação na mobilidade e da eficácia e eficiência na mobilidade. Elas estão presentes – em uma determinada medida – nas cidades que ficaram entre as 10 primeiras na classificação final.

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As cidades Top 10 do ranking possuem um grande foco em: soluções implementadas para o uso de transporte público; andar a pé e de bicicleta; compartilhamento de bicicletas; além da diminuição do uso de veículos individuais motorizados. Tudo isso graças as estratégias por elas empregadas.

“They also have a coherent mobility strategy.”

Parece que a palavra de ordem é definitivamente PLANEJAMENTO. Mas este planejamento tem que vir associado com ações proativas no desafio da mobilidade urbana, explica o relatório.

No entanto, mesmo com todos os avanços em algumas cidades é interessante notar a percepção das pessoas sobre o assunto. As pessoas não estão plenamente satisfeitas, por exemplo, com o transporte urbano, ou seja, mesmo com notas altas em vários quesitos um sistema perfeito que envolva a mobilidade urbana ainda não existe.

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Outro ponto importante é sobre o quão grande a cidade é. Não existe uma relação (ou correlação) entre seu tamanho e seu índice de mobilidade. Ainda mais, replicar experiências das cidades grandes pode ocasionar, especialmente nas cidades (consideradas) emergentes, uma má distribuição modal, um alto nível na emissão de carbono e baixa velocidade nos deslocamentos. Incrível, não é ?!

Com isso percebe-se que a cópia de uma solução pode não ser a solução. A assertividade na implementação de ações passa pela adequação das soluções e, sobretudo, pelo combate a aversão da inovação no sistema da mobilidade urbana.

Sendo assim, as soluções passam por minimizar os 4 pontos principais de deficiência:

  • Falta de uma Plataforma de colaboração;
  • Ausência de Visão;
  • Falta de foco nas necessidades dos clientes;
  • Competição inadequada.

Vejam que o assunto é por demais complexo. No entanto, as soluções estão a priori disponíveis:

“Solutions to address the pressing mobility challenges are widely available.”

Quais são então os passos para alcançar o “sucesso” na questão da mobilidade urbana? Bem, comecemos por entender o real problema, seus impactos indiretos, os stakeholders e tudo mais que vc acha que não tem a ver com o assunto.

Aliás, quanto mais achamos que um assunto não tem ligação direta com a mobilidade é que, nestes casos, sua convergência em médio e longo prazo vão se tornar cada vez mais nítidos e relevantes no desenvolvimento (ou não) da mobilidade urbana.

No próximo post vamos abordar o tópico do relatório que trata das soluções e tecnologias que estão esperando (e clamando) por desenvolvimento. Aguardem!

Para ler o post anterior acesse O Futuro da Mobilidade Urbana – Parte 1.

O Futuro da Mobilidade Urbana – Parte 1

A empresa de consultoria Arthur D. Little (ADL) publicou um estudo sobre o status da mobilidade urbana em 66 cidades no mundo considerando 11 diferentes critérios. A cidade de São Paulo (posição 44 no ranking) junto com a Cidade do México (33º) e Buenos Aires (34º) foram as representantes latino-americanas neste estudo. Hong Kong lidera a lista dos Top 10 deixando para trás Amsterdã, Londres, Estocolmo, Paris, Boston e outras.

Fonte: The Future of Urban Mobility (Oct, 2011)

Os critérios foram divididos em dois grandes grupos: mobility maturity e mobility performance. Através dos itens contidos em cada grupo é muito interessante perceber a vasta dimensão que a mobilidade urbana possui. Ela realmente vai de A à Z, desde identificar se as políticas públicas possuem uma visão clara e uma estratégia bem definida para enfrentar o problema da mobilidade nas cidades, até avaliar o número de bicicletas compartilhadas ou mesmo a taxa de acidentes fatais no trânsito.

Justificativas e motivações não faltam para esse estudo. Talvez o de maior importância seja o crescimento da população mundial. Estima-se que em 2050 teremos 70% da população concentrada na zona urbana. Algumas tendências apontam que nesta mesma década os cidadãos americanos passarão cerca de 100 horas do ano em engarrafamentos. Só para você ter uma ideia, esse valor é três vezes maior do que o valor médio da década de 90.

Fonte: The Future of Urban Mobility (Oct, 2011)

Por este e outros motivos, segundo o estudo, o investimento anual em mobilidade urbana precisa quadruplicar para algo em torno de 829 bilhões de euros segundo as necessidades identificadas.

Fonte: The Future of Urban Mobility (Oct, 2011)

O estudo não aponta um determinado vilão, mas identifica que a sustentabilidade será peça chave nos sistemas de mobilidade urbana em função do aumento da demanda no consumo por energia e matéria-prima. Os sistemas de mobilidade urbana, portanto, precisam ser reprojetados e isto significa que:

(…) environmentally friendly mass transit must win out over individual motorized transport.

A sustentabilidade, portanto, precisa ser trabalhada considerando três fundamentais dimensões: pessoas; planeta; e deve ser considerado o lucro. Tais dimensões trabalhando em conjunto gerariam benefícios como:

  • Criação de negócios com compatibilidade ambiental;
  • Criação de comunidades sustentáveis e com alta qualidade de vida; e
  • Investimentos sociais e promoção da equidade no sistema econômico.

Duro acreditar nisso, não é mesmo?! Mas os números do estudo não mentem!

Nos próximos posts irei focar em alguns gráficos interessantes e reveladores deste estudo e tentarei traçar algumas correlações. Desta maneira tentarei entender, junto com você, alguns intrigantes valores da mobilidade urbana em algumas cidades ao redor do mundo.

Até lá!

Ação de curto prazo. Mudança de longo prazo

Fiquei intrigado com o subtítulo do material “Tactical Urbanism“. Ao mesmo tempo em que é simples, ele traz consigo uma verdade que por vezes duvidamos da sua eficácia.

Short-term Action || Long-term Change

Em uma tradução livre poderia ser: “Ação de curto prazo || Mudança de longo prazo”. Muito interessante pensar que mudanças provocadas e realizadas em pequenas escalas vão surtir efeitos duradouros. Pura verdade!

tac·ti·cal
1. of or relating to small-scale actions serving a larger purpose
2. adroit in planning or maneuvering to accomplish a purpose

Segundo a publicação, as transformações em grande escala – como a construção de estádios, por exemplo – vão consumir muito investimento de tempo bem como uma profunda reserva de capital político, social e fiscal. Nesta linha de raciocínio não é difícil perceber que, no longo prazo, não temos como garantir que economicamente e socialmente teremos benefícios. Alguém conhece o legado dos jogos Pan-Americanos de 2007 realizados no Rio de Janeiro?

Por outro lado mudanças em pequena escala revelam abordagens que permitem que iniciativas locais testem novos conceitos antes mesmo de fazer mudanças políticas substanciais e comprometer-se financeiramente. Será que funciona?

As táticas publicadas são simples, vão desde criar espaços seguros (play streets) para encontro das pessoas até recuperar (no sentido do resgate mesmo!) ambientes dedicados aos automóveis em um determinado dia da semana (park [ing] day).

A street temporarily transformed.
Credit: Art Monaco Portland via my.parkingday.org

Acredito que não estamos preparados para nenhuma das duas abordagens. Para a primeira abordagem – dos altos investimentos e mega construções e eventos – vamos ter a prova de fogo com a copa do mundo. Quanto à segunda, aparentemente simples, o problema é (basicamente) a mudança de uma cultura inteira. Aí reside a dificuldade!

Por isso que (volto a dizer) essa mudança tem que ser de dentro para fora (primeiramente em você), depois ela deve seguir num raio de 360º (familiares, pares e amigos próximos) e, por fim, ações organizadas governamentais (ou não) com investimentos atrelados.

Fazer é fácil. Fazer coisas simples, mais fácil ainda!

Princípios (simples) da mobilidade urbana

Independente do assunto que estamos envolvidos em algum momento da nossa vida, acredito ser muito importante entender as origens das coisas, as definições, os princípios, as diferentes visões e, de maneira geral, tudo que possa nos trazer conhecimento primário naquilo que estamos estudando.

Seguindo nesta direção fui em busca dos princípios que norteiam o assunto Mobilidade Urbana na visão do ITDP (Institute for Transportation & Development Policy) através do projeto OCO (Our Cities Ourselves).

O ITDP é um instituto fundado em 1985 que promove (dentre outras coisas) políticas de transportes sustentáveis e socialmente mais justas em todo o mundo.

Os princípios são:

1. Ande a Pé! Crie ambientes que privilegiem o pedestre.

2. Propulsão Humana! Crie bons ambientes para bicicletas e veículos não-motorizados.

3. Vá de Ônibus! Forneça transporte público de qualidade com bom custo-benefício.

4. Estabeleça Limites! Permita o acesso de veículos em velocidades seguras e em números significativamente reduzidos.

5. Cuide das Entregas! Sirva a cidade de maneira limpa e segura ao fazer entregas de mercadorias.

6. Misture! Integre pessoas e atividades diferentes, edifícios e espaços.

7. Preencha os Espaços! Aproveite os vazios para criar bairros compactos e atraentes, orientados para pessoas e para o transporte público.

8. Fique Ligado! Respeite e valorize o patrimônio natural, cultural e histórico do seu lugar.

9. Conecte as Quadras! Proporcione caminhadas diretas e produtivas, com quadras e edifícios de pequeno porte.

10. Faça Durar! Construa para longo prazo.

Acho realmente intrigante e antagônico como princípios tão simples podem ser tão complexos de serem implementados. Talvez tenhamos que ter, além do planejamento, pessoas verdadeiramente engajadas e com princípios realmente alinhados com essa problemática.

Mudar o entorno significa primeiramente provocar uma mudança em si mesmo.

*Fonte: Os 10 princípios estão disponíveis na versão em português da publicação “A Cidade somos nós”.

Compartilhamento de bicicletas: lugares diferentes, mesmos problemas!

Essa semana li duas notícias que, em um primeiro momento, deixaram-me bastante confuso. A primeira foi uma matéria no TheCityFix sobre o Bakeshare in Delhi (compartilhamento de bikes em Deli na Índia). Ela revela algumas informações, no mínimo, interessantes. Primeiro: ocorreu uma diminuição no uso de transportes públicos em Deli; segundo: houve aumento no uso de transportes não-motorizados; e terceiro: o sistema de compartilhamento de bicicletas vigente não decolou, possuindo vários problemas. Como pode? Aumento da propulsão humana no deslocamento e, ainda assim, o uso de bicicletas ainda acanhado? Estranho!

A segunda notícia trata do sistema de compartilhamento de bicicletas no Brasil, em especial no Rio de Janeiro. Uma matéria do O Globo chamada “Bike Rio dá sinais de exaustão e precisa de expansão” revela problemas ocasionados pela alta demanda no uso das magrelas. Em suma: o sistema de aluguel de bikes está ficando esgotado. Note que isso é apenas uma constatação, não é um julgamento ou uma caça aos culpados (Governo, Executor ou Patrocinador).

O fato é claro e pude constatar in loco em visita ao Rio: faltam bicicletas em várias estações. Quando haviam bikes não era possível retirá-las por causa de “problemas técnicos”. É evidente que o uso em si, no tocante a disponibilidade, vai se auto-regular em alguma medida. Mas, sem sombra de dúvidas, 580 bicicletas no Rio ainda é um número “modestamente pequeno”. Para efeito de dimensionamento, e não de comparação, temos o belo exemplo do Vélibi em Paris que possui mais de 20 mil bicicletas neste sistema de aluguel; e a Cidade do México que possui 2,5 mil Ecobicis.

Neste aparente antagonismo entre as matérias, com realidades econômicas e sociais (ocasionalmente) distintas, alguns fatos podem servir como fonte de aprendizado. Quer ver?

No caso de Deli, por exemplo, vemos o problema da falta de escala no sistema de compartilhamento e no uso propriamente dito, com a falta de reparos e manutenções. No caso do Rio, a escala (ainda que pequena) provou que brasileiro quer usar sim este tipo de serviço. No entanto, os problemas no uso são os mesmos: “problemas técnicos”! Na Cidade do México a tecla de problema é a mesma, mesmo com 2,5 mil bicicletas. Usuários enfrentam filas para retirar as bicicletas. Mais uma vez o problema de escala!

Não sei se existe uma equação ótima para a implantação dessas iniciativas. Unir qualidade no serviço e dimensionamento adequado de estações e bicicletas é um grande desafio que deve ser pautado na adesão do serviço em si. Acredito que o brasileiro, de maneira geral, já abraçou esse “novo” modo de se deslocar. É preciso agora que o governo acorde para este fato e implemente verdadeiramente ações para melhoria da mobilidade urbana.

Fomentar o uso das magrelas vai muito além das iniciativas de interdição de grandes avenidas aos domingos. É preciso encarar que a bicicleta é um veículo que deve e pode compartilhar a estrutura viária urbana. Aliás, a iniciativa tem que ser resultado da observação e estudos em lugares que deram certo e, sobretudo, em lugares que deram errado. Tem muitos exemplos por ai. Simples assim: estudar, adequar e implementar uma solução eficiente!

Quero mais horas no meu dia

Foi com a pergunta “O que vc faria se ganhasse mais horas no seu dia?” que abri a palestra/conversa no evento Mobilização do C.E.S.A.R. Na verdade a simplicidade da pergunta remetia a uma profunda reflexão no público presente no tocante ao uso dos carros nas grandes cidades.

O objetivo da palestra foi vitoriosamente alcançado. A identificação do público de maneira genuína com o tema e o comprometimento com os conceitos, problemas e soluções apresentados foi surpreendente. Houve, na sua forma mais sincera e espontânea, Adesão total. Embarcaram cegos e confiantes no propósito maior da palestra: promover uma mudança pessoal.

Essa palestra abre em definitivo espaço neste blog para o assunto que a muito tempo martela na minha cabeça: mobilidade urbana. Vou colocar aqui alguns textos que são frutos de reflexões e estudos que ando fazendo a respeito deste assunto.

A razão de tudo isso é que tenho um objetivo (pessoal) muito maior: (novamente) mudar as pessoas. Mobilidade urbana é mais do que esperar ações do governo na construção de  ciclovias e ciclofaixas nas grandes cidades. Acredito verdadeiramente que temos que rever nosso próprio modo de deslocamento para distâncias curtas.

Tá com pressa? Use a perna !

Fonte: A foto publicada neste post, bem como a pergunta motivadora da palestra, encontrei na madrugada anterior ao evento no site TheCityFixBrasil. Vale a pena ler a matéria completa AQUI.